04/04/2024

A sensação, para os exibidores, é de desastre iminente

Por Marcos Barros*, presidente da ABRAPLEX e Ceo da Cinesystem

A pandemia parece ter bagunçado o senso de tempo da população. Essa é a sensação que temos sempre que um setor da economia cita a crise sanitária para explicar déficits, problemas, momento de recuperação. “Comércios fechados, ruas vazias, parece que foi há tanto tempo, como ainda não se recuperaram? O mundo já voltou ao normal… ou ao menos ao ‘novo normal”. A verdade é que para quem depende diretamente do público para gerar renda e respeitou o longo período sem funcionamento, firmou compromisso de não demissão ou manteve o máximo de colaboradores possível mesmo no pior cenário, a retomada é lenta e está longe de ser concluída. E dentre os setores mais atingidos, com certeza estão os ligados à cultura, entretenimento e eventos, os mesmos que foram ‘salvos’ pelo Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (PERSE) e hoje pedem para que o governo federal entenda que, sem esse auxílio, o retrocesso será imenso. 

Falando diretamente sobre o mercado exibidor, do qual faço parte há quase 30 anos e que representa uma parcela bem pequena do PERSE - de acordo com a projeção inicial, os cinemas demandam apenas 2% do orçamento total -, não há exagero em afirmar que a recuperação completa deve ocorrer somente em 2027. Fomos os primeiros a fechar, um dos últimos a abrir. Além disso, logo que voltamos a atender o público, faltou matéria prima, os filmes! Além da paralisação das produções por conta do coronavírus, uma greve em Hollywood atrasou ainda mais a finalização dos longas. Tudo isso, enquanto gerenciamos dívidas acumuladas no período. 

Vejam, 90% da indústria cinematográfica nacional é composta por empresas familiares de pequeno porte. O PERSE possibilitou que parte esmagadora desses exibidores mantivessem a operação, empregos e sobrevivessem. Mas, mesmo assim, o nível de endividamento aumentou muito. São R$500 milhões apenas com o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). 

A retirada do setor de exibição do PERSE, que foi votado pelo congresso sete vezes e projetado para ter uma duração de cinco anos, é um baque maior do que muitos poderão aguentar. O quadro do setor de exibidores é bastante diferente do perfil das demais empresas beneficiadas pelo Programa e mesmo das demais atividades de varejo. Para se ter ideia, o incentivo para a exibição foi de R$135 milhões em 2022 e R$169 milhões em 2023. É uma parcela ínfima do PERSE. 

Não há, sequer, como imputar ao exibidor as alegações de fraude. O setor de exibição cinematográfica disponibiliza os dados de faturamento de bilheteria diariamente para empresas de coletas de dados, além de gerar arquivos que são reportados para a ANCINE. Ou seja, é um setor absolutamente transparente. 

O PERSE não foi suficiente para resolver todos os desafios que ainda temos pela frente. Os cinemas são atividades complexas, que envolvem o tipo de filme lançado, a adesão do público, o poder de compra da população e os hábitos de consumo. Mas não há como negar que a renúncia fiscal gerada pelo Programa é imprescindível para que possamos continuar a operar e recuperar o fluxo de caixa. O PERSE foi, sem dúvida, o instrumento que permitiu a recuperação da atividade e há, no momento, uma sensação de desastre iminente diante da possibilidade de perdê-lo. 

*Marcos Barros, presidente da ABRAPLEX - Associação Brasileira das Empresas Exibidoras Cinematográficas Operadoras de Multiplex, é um executivo com mais de 45 anos de experiência, quase 30 deles dedicados ao mercado exibidor. É também fundador e CEO da Rede Cinesystem Cinemas, exibidora paranaense presente em 10 estados do Brasil e que recebeu, só nos últimos cinco anos, mais de 20 milhões de pessoas em seus multiplex. 

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